Bertoleza e a violência de gênero: um estudo comparativo entre O Cortiço e a Lei Maria da Penha
Resumo
Em virtude das consequências nefastas e sua preponderância no Brasil, a violência doméstica se configura como um problema de saúde pública, o qual atinge o âmbito físico, psicológico e social das mulheres e demais pessoas da rede de apoio às vítimas. A violência doméstica atinge a todas, independentemente da situação econômica, do perfil profissional, do letramento acadêmico, da cor ou da religião. Ainda assim, há grupos de mulheres que, frente às carências às quais já estão sujeitas, são atravessadas pelas agressões estruturais e sistemáticas, com ênfase para as mulheres negras. O espaço doméstico, longe dos olhares dos demais e protegido em uma redoma fundada na crença sobre a naturalização da violência, torna-se ambiente propício para a perpetração de agressões, humilhações e outras formas de violações, que ferem a dignidade das mulheres. Ademais, aquilo que ocorre nos espaços privados reverbera nas vias públicas, onde o convívio social é contínuo. A fim de ampliar essa discussão, foi construído pontos de conexão entre a Lei Maria da Penha e a obra brasileira O Cortiço, de Azevedo. Objetiva-se analisar, de maneira exploratória, comparativa e crítica, as violências presentes nas narrativas de vida da personagem Bertoleza. Conscientes de que esta discussão sobrepuja a ficção, são feitos paralelos e conexões entre as personagens e a realidade brasileira, a partir da interpretação da Lei, no que tange à violência doméstica contra as mulheres, a crítica social às estruturas que banalizam as agressões, a constituição da vítima e a percepção das condições degradantes associadas às mulheres que sofrem tais violências.